Algumas das pessoas da Comunidade Portuguesa de WordPress no palco do evento, no final.

A Comunidade Portuguesa brilhou em Cracóvia: uma crónica do WordCamp Europe 2026

Quando no primeiro dia do evento, o Dia do Contribuidor, apareceu no ecrã um slide com a frase “É tudo sobre comunidade“, ficou imediatamente dado o mote para este WCEU. Mais do que ser apenas uma declaração de intenções acerca do Dia do Contribuidor, a mensagem acabou por ser decisiva e ditou todo o sentimento que se viveu ao longo dos três dias. O WordCamp Europe estava, de novo e de forma clara, centrado em redor da sua comunidade.

No dia seguinte, este espírito atingiu um dos seus pontos mais altos quando Joachim Valdemar Yde, gestor da web do CERN, anunciou que o site principal da organização, o emblemático `home.cern`, estava oficialmente a correr em WordPress.

O aplauso imediato que se seguiu disse muito sobre o estado de espírito da comunidade, que chegou a este WordCamp Europe (WCEU) com a necessidade de provar algo.

Depois de mais de um ano marcado por cisões, divergências e alguma incerteza no ecossistema global, a edição de 2026, realizada no elegante ICE Kraków Congress Centre, marcou o regresso em grande do ecossistema europeu.

Também no centro desta celebração de resiliência e inovação tecnológica, esteve uma das comitivas mais vibrantes e participativas: a Comunidade Portuguesa de WordPress.

Com cerca de 80 representantes lusos presentes na Polónia, Portugal afirmou-se não apenas como um grupo de entusiastas, mas como uma força real na organização e futuro do ecossistema mundial.

O regresso aos grandes números

Para compreender o impacto real do WCEU 2026, é necessário olhar para o contexto em que ocorreu e para os números. O encontro de três dias atraiu portadores de bilhetes oriundos de 81 países. No total, inscreveram-se 2.458 pessoas. Destas, 2.230 pessoas registaram-se efetivamente no evento (fizeram o check-in no local), o que representa uma excelente taxa de participação de 90,7%.

Este volume de presenças traduz um salto face aos 1.723 participantes do ano passado, em Basileia.

Quase um quarto dos presentes estreou-se nestas andanças, demonstrando uma renovação da comunidade.

Os números mais baixos de Basileia tiveram duas explicações principais. Por um lado, o custo de participar num evento de 3 dias na Suíça, com um dos níveis de vida mais elevados da Europe. Por outro, o impacto da disputa pública entre o cofundador do WordPress, Matt Mullenweg, e a WP Engine, que eclodiu em 2024, e que deixou partes da comunidade divididas.

Cracóvia parece ter sido a pomada que curou algumas das feridas e trouxe a fasquia de volta ao intervalo habitual de mais de 2.200 participantes, visto anteriormente em Atenas, Turim e Porto.

A equipa organizadora focou-se em tornar o WCEU novamente acessível e acolhedor, e isso foi visível nos pequenos detalhes, com a oferta de transportes na cidade ao longo dos 3 dias, comida e bebidas disponíveis ao longo de todo o dia e em vários locais.

Foto de grupo no terceiro dia do evento.

A comitiva Portuguesa esteve em todo o lado, na organização, no voluntariado e nos patrocinadores

A presença portuguesa fez-se notar logo nos bastidores e nas equipas que ditaram o sucesso de toda a operação. Portugal esteve representado em todas as facetas do WordCamp Europe.

Na exigente e complexa equipa de organizadores, contámos com nomes bem conhecidos da comunidade lusa: Carolina Osório, Tozé Vasconcelos, José Freitas, Marco Martins e Carlos Moreira.

Além da organização nuclear, mais de uma dezena de portugueses vestiram a cobiçada t-shirt de voluntários, assegurando o fluxo de pessoas nas salas e o apoio técnico. Outros integraram as comitivas de grandes marcas e patrocinadores internacionais que sustentam o ecossistema financeiro do WordPress, enquanto uma vasta fatia de programadores, designers e decisores de agências nacionais participaram ativamente nas palestras.

Portugal no palco: segurança e o futuro do desenvolvimento

A comunidade lusa não se limitou a assistir na plateia; subiu ao palco principal para partilhar conhecimento técnico de ponta perante uma audiência global.

Samuel Silva: O Alvo Oculto das Pesquisas
Um dos momentos altos da representação portuguesa foi a palestra de Samuel Silva, que abordou um tema crítico para a estabilidade de qualquer infraestrutura web: “The hidden DDoS threat in WordPress: abusing the search endpoint”. Samuel abordou como as funcionalidades nativas de pesquisa podem ser exploradas maliciosamente para sobrecarregar servidores e como nos podemos proteger.

Nas suas redes, Samuel não escondeu a satisfação: “Que experiência! Obrigado Cracóvia, obrigado WordCamp Europe. Isto foi verdadeiramente especial.”

Samuel Silva no palco do WCEU 2026.

 

Fellyph Cintra: Inovação no Browser
Outro destaque com fortes ligações ao nosso país foi a intervenção de Fellyph Cintra. Brasileiro mas a residir em Portugal há muitos anos, Fellyph é uma figura familiar e ativa na comunidade lusa. Subiu ao palco para falar sobre “What’s new in WordPress Playground?”, demonstrando como o WordPress pode agora correr inteiramente dentro de um navegador web, servindo como uma sandbox segura para agentes de Inteligência Artificial.

 

Fellyph Cintra no palco do WCEU 2026.

Francisco Barros: WordPress no CERN
Foi protagonista de uma das principais e mais aguardadas sessões do evento. Francisco Barros apresentou, com Joachim Valdemar Yde, a keynote inaugural “Two Worlds Collide: WordPress at CERN“. A apresentação mostrou o processo de adoção do WordPress pelo CERN, implicando uma migração de mais de 800 websites, que estavam desenvolvidos em Drupal.

Francisco Barros no palco do WCEU.

Os grandes temas: do CERN à Inteligência Artificial

A par do grande anúncio do CERN (que revelou ter agora 580 sites em WordPress, geridos por uma infraestrutura Kubernetes personalizada que planeia tornar open source), a versão WordPress 7.0 e a Inteligência Artificial (IA) dominaram a agenda de Cracóvia.

A IA não foi apenas um chavão teórico. Esteve em workshops práticos. Alain Schlesser, programador que marcou presença em vários eventos nacionais, discutiu a otimização de sites para assistentes virtuais de IA, notando que as visitas geradas por estas ferramentas já ultrapassaram a marca dos mil milhões a meio de 2025.

No painel de encerramento, Rich Tabor (vice-presidente na Automattic) revelou que utilizou exclusivamente agentes de IA para criar os protótipos das novas melhorias de interface do editor, não tendo escrito uma única linha de código à mão durante todo o ano.

Numa novidade este ano, a educação teve um espaço dedicado, onde se discutiu a criação de parcerias com universidades, tendo a Universidade de Tecnologia de Cracóvia anunciado no palco uma disciplina onde o ensino de WordPress será obrigatório.

Dia do Contribuidor e ausências notadas

O Dia do Contribuidor (Contributor Day) reuniu 778 participantes distribuídos por 23 equipas e foi um dos mais suaves e produtivos dos últimos anos. A edição de Cracóvia inovou ao introduzir uma tradição polaca: os workshops da WordPress Academy, focados em utilizadores iniciantes que davam os seus primeiros passos na plataforma.

A ausência de Matt Mullenweg foi o facto mais notado. O cofundador do WordPress não viajou para a Polónia devido a motivos familiares, acompanhando o evento via livestream e interagindo com a comunidade através do seu blogue e do Tumblr.

No habitual momento de perguntas e respostas de encerramento, conduzido pela Diretora Executiva, Mary Hubbard, e por Matías Ventura, líder do lançamento de diversas versões do WordPress, incluindo a 7.0, falou-se sobre o suporte multilingue nativo. Enquanto Matías defendeu cautela para não comprometer a estrutura de dados, Matt Mullenweg, a assistir à distância, sugeriu num post publicado em múltiplos idiomas que o problema poderá vir a ser resolvido de forma transversal e automática pelas traduções de IA em tempo real nos próximos anos.

Foto de grupo no Dia do Contribuidor.

Os bastidores

Como bem sabe quem frequenta estes eventos, nem tudo o que acontece no WordCamp Europe acontece dentro das quatro paredes do centro de congressos. Há uma vida paralela e animada, em particular depois do fecho das atividades de cada dia, com dezenas de iniciativas informais, conversas nos passeios da cidade, em cafés e nos restaurantes que acolhem os milhares de visitantes.

A comunidade portuguesa honrou as nossas tradições e viveu estes momentos de bastidores. Formaram-se pequenos grupos de confraternização para trocas de ideias e partilha de conhecimento, geralmente acompanhados de comida e bebida, à maneira lusa. Foi a oportunidade perfeita para estreitar laços, abraçar quem só se vê presencialmente uma vez por ano e integrar os estreantes lusos na verdadeira essência daquilo que é o WordPress.

A épica festa de encerramento (afterparty) estendeu-se por oito horas e ofereceu desde pistas de dança, área de kakaoke, até espaços tranquilos para conversas mais ou menos profundas.

Próximas paragens: O futuro do WordPress em Portugal (e Espanha)

Para a Comunidade Portuguesa de WordPress, os cafés e os corredores polacos, bem como o Dia do Contribuidor, serviram ainda de “sala de reuniões” tática. O evento foi o palco ideal para alinhar estratégias e afinar os detalhes dos próximos grandes encontros em solo nacional.

Ficou claro que o foco a curto prazo é o WordPress Day for AI, previsto para Outubro, em Faro. Será o terceiro evento temático da comunidade (depois de o Porto ter acolhido o WordPress Day for Ecommerce e de Lisboa ter recebido o WordPress Day for Developers) e o primeiro centrado em exclusivo nas ramificações da Inteligência Artificial no nosso ecossistema.

A médio prazo, os olhos já estão postos na capital. O WordCamp Portugal 2027 regressará a Lisboa, em Maio do próximo ano, sucedendo ao enorme sucesso do WordCamp no Porto. Os passos logísticos começaram a ser desenhados pelas equipas presentes em Cracóvia, com mais novidades a serem anunciadas em breve.

Por fim, o anúncio mais aguardado de sábado: o WordCamp Europe 2027 vai realizar-se em Málaga, Espanha, de 27 a 29 de Maio. É a primeira vez que o evento regressa a um país repetente (depois de Sevilha em 2015). Com um local à beira-mar e uma vizinhança tão próxima, adivinha-se que a caravana portuguesa não conte apenas com 80 pessoas, mas com uma invasão portuguesa de criadores, programadores e entusiastas.

O WordPress é software, mas como provou Cracóvia, é, acima de tudo, as pessoas que o fazem, nas suas diversas capacidades. A comunidade portuguesa, de pedra e cal, provou que está no centro dessa revolução. Vemo-nos em Faro.

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